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Márcia Aguiar

sexta-feira, agosto 27, 2010

Tragédia Grega e Polis por Thiago Rodrigues Braga *

A tragédia grega  constitui uma base de ensinamentos cívicos para a polis. O sentido do termo polis não quer dizer apenas um local socialmente organizado, antes disso, para os gregos antigos, a polis era uma maneira de compartilhamento de concepções práticas da vida cotidiana. Nesse aspecto, o texto propõe uma interpretação da tragédia grega enquanto elemento formador e regulador da polis grega. A Tragédia grega ensina como enfrentar as nossa fraquezas, a condição humana. Nessa linha de pensamento, o conceito grego “sophrosyne” tem um papel primordial, fazer com que cada cidadão sinta-se parte de um todo maior, chamado polis.
Palavras-chaves: Tragédia grega, Polis, Sophrosyne (temperança).
A tragédia grega aparece após a epopéia – de Homero e Hesíodo - Por volta de 500 a.C, reunia grande parte da população grega num mesmo espetáculo. A música junto aos diálogos curtos acendia o entusiasmo do público e arrastava os gregos ao delírio. Os diálogos ocultavam alguns elementos, por exemplo, um personagem fala com sua própria irmã sem que esta saiba que esta falando com seu irmão.
O poeta trágico torna coisas, familiares ao povo grego, acontecimentos comum, em coisas estranhas. Faz o comum torna-se novo, diferente, não habitual. Esse estranhamento ocorre pelo ocultamento –desvelado no fim de cada diálogo – de informações. O caminho traçado pelo poeta dá uma sensação de espanto e medo. Provoca uma mudança abrupta de emoções no coração do expectador. Nesse jogo dialógico entre aquilo que se oculta e o que se estranha, traz a tona a idéia de “pathos” grega. O ‘pathos’ é a influência de forças externas sobre o pensamento e comportamento do homem. As forças externas é tudo aquilo que acontece fora do corpo do indivíduos, os estímulos.

Assim como na epopéia a tragédia retrata o herói, situa-se entre os deuses (divindade) e o homem. O herói alimenta sua força na hybris, isto é, ele se glorifica por meio do excesso e da desmedida. Ao expressar seu desejo, e tentar satisfazê-lo, o herói causa uma erupção de sentimentos na platéia – é justamente nesse momento que compreendemos a função da tragédia enquanto ensinamento cívico.
A tragédia não retrata a atualidade da Grécia antiga, mas fala a respeito de um aspecto universal, comum a todos os homens de todas as épocas, o destino de cada um enquanto indivíduo. Aqui vem a pergunta que cada um pode fazer a si mesmo: O que devemos fazer para aceitar melhor as nossa limitações e incapacidades? –para os gregos as limitações da condição humana estão entranhadas com aquilo que eles entediam por destino. Deste modo, o cidadão grego se perguntará; o que posso fazer para evitar o mal que lhe sucedeu ao herói trágico? Ele, o homem grego, teme cair no mesmo erro que o herói trágico.
A paidéia – formação do homem grego de criança à idade adulta- se fortalece com a tragédia e permite ao grego conhecer melhor sua interioridade, o seu “daimon” – cabe dizer que o “daimon” não representa necessariamente a força negativa interna de cada um, assim como o herói, o “daimon” se localiza entre a divindade e o homem, portanto, ele pode ser hora algo positivo, hora algo negativo.
O herói trágico não é o mesmo que o herói da epopéia, ele não é um exemplo a ser seguido, não representa um ideal de homem –como o herói épico-. Ele representa a falta de comedimento e acaba em sofrimento. O homem grego vê no herói trágico a sua própria dor, portanto, serve de um alerta para não cair no mesmo erro que ele. O herói trágico ensina ao grego como atravessar um rio cheio de piranhas sem ser notado por nenhuma delas.
A tragédia grega permitiu ao grego conhecer-se melhor sem colocar-se em oposição à vida púbica. O sujeito reconhece seus erros e seus limites e tenta superá-los por meio da catarse (purificação). Como se alcança a catarse? Através do domínio dos próprios desejos, dos prazeres, o controle da hybris. Desse modo, o indivíduo atinge um grau de temperança, a “sophrosyne”, justa medida, o equilíbrio da ação. A tragédia é um ritual que purifica o mal, expurga todo sentimento de superioridade que o indivíduo possui. Não há o mais forte ou o mais belo, mas é o reconhecimento das fraquezas humanas que permite ao sujeito sentir-se igual aos outros. Torna-te o que tu es. A solene frase escrita por Nietzsche, deve ser entendida aos moldes gregos, e, quer dizer, reconhece o quão o humano que eres, reconhece a tua condição, a tua espécie, saiba quais são os teus limites, e, só assim terás um campo aberto para correr, andar, saltar, e atingir lugares, antes, nunca vistos.
Na Grécia antiga não havia a noção de “eu” tal como temos hoje, um “eu” individual, fragmentado, deslocado da vida pública. O grego não se considera senhor de sua integridade, ele sabe que existem forças que agem no indivíduo que independem da vontade, por exemplo, a constituição biologia, a história vivida de cada um, o contexto social. São condicionamentos ao homem que independem dele. O grego entendia todos esses condicionamentos no conceito de destino. Do destino nada se sabia, saber o destino é coisa para os deuses. Ninguém podia ser responsável pelo seu próprio ato, visto que aquilo fazia parte do destino. Sem a noção de um “eu” individual, não há idéia de culpa, e sem culpa não é possível pensar em punição. A idéia de culpa ligada à punição surgirá com o advento do cristianismo. Se não há punição alguém pode pensar, qual seria o instrumento regulador da ordem social? Uma resposta que satisfaça um questionamento como este exigiria um estudo filológico e histórico da Grécia antiga, aqui pretendemos apenas assinalar alguns elementos.
Quando o homem grego tenta agir com temperança -sophrosyne-, ele, de certa forma, age na polis. A preocupação consigo mesmo, do sujeito, culmina na harmonia da polis. É na polis que o homem grego se sente igual perante aos outros. Podemos perceber a importância da tragédia em fazer os gregos reconhecerem-se como iguais. Destarte, a polis se afinca numa base unitária desenvolvendo-se. Nesse contexto, não há separação entre vida pública e vida privada, para o grego ele é parte de um todo. Um todo chamado de polis.
A purificação através do domínio de si é uma medida que abranda o grau de maldade de cada cidadão, e isso engendra a manutenção do cosmo grego, a ordem.
Não podemos conceber o conceito grego “sophrosyne” como instrumento de controle social, não como um olho que guarda e vigia seus cidadãos. A renuncia do homem grego não é a mesma que ocorria no cristianismo. Na época cristã a renuncia era realizada visando obter um fim, um lugar junto a Deus após a morte, uma recompensa. Para os gregos não há essa idéia de recompensa, de premiação. A renuncia feita a partir da temperança é apenas uma boa forma para se aceitar a condição humana, é um modo de não entregar-se aos sentimentos que empobrece o homem, por exemplo, raiva, inveja, rancor. Não entregar-se não significa que o sujeito deixará de sentir raiva, mas ele impedirá que a raiva tenha um efeito negativo. Os sentimentos são involuntários, não podemos deixar de amar uma pessoa como quem desliga uma televisão ou não conseguimos abolir a tristeza, mas podemos aprender a lidar com esses sentimentos a fim de obter um efeito positivo. Era assim que funcionava a temperança para os gregos da polis. É necessário dizer aqui que, os gregos da época da tragédia só buscava a “sophrosyne” por medo, medo que era provocado pelas peças trágicas. Portanto, a tragédia induz ao homem grego a ter uma vida temperante. É esse modo de vida que terá uma grande importância para a polis.
Para o grego antigo a “catarse” não é uma manifestação de sentimentos reprimidos. Trata-se de uma relação consigo mesmo, uma questão de auto-superação, vencer as próprias fraquezas.
Como já vimos, os gregos não possuíam o conceito de culpa do direito moderno, ninguém podia errar pela própria vontade, só se erra pela ignorância, como apontou Sócrates. O pensamento de Sócrates é herdeiro da tragédia e, portanto, toda sua filosofia perpassa os ensinamentos cívicos que encontram-se no substrato das peças trágicas.
O daimon do qual se diz que acompanhava Sócrates é a cristalização do “pathos”. Ele não expressa uma qualidade especial que o filósofo da moral tinha. Não é um distintivo que nomeia a superioridade intelectual de Sócrates, apenas sugere que todos estão sujeitos a praticar um ato contra a vida de outro, portanto, é necessário cuidar as próprias paixões, para que estas não levem ao homem a cometer uma crueldade. Mais uma vez, vemos como a tragédia ensina que todos os homens são iguais em termos de humanidade. Todos sofrem, amam, odeiam, choram, etc.
Para os gregos a consciência de um destino, do qual nada se sabe, é uma evidência que não se consideravam donos dos próprios passos. O homem grego, daquela época, se sente integrado a “physis”. Comumente entende-se por “physis” natureza, mas como sabemos da vantagem da língua grega arcaica em condensar vários significados numa mesma palavra, deixamos ao leitor uma citação:
“physis é o nome correspondente aos verbos produzir, fazer crescer, formar-se,crescer asas.” (Ferrater Mora, 2271)
“Physis significa , pois, originalmente, o céu e a terra, as pedras e as plantas, os animais e o homem e a história humana como obra dos homens e dos deuses” (Ferrater Mora, 2271)
O homem grego se concebe como parte integrante da “physis”, nunca acredita ter uma postura objetiva (O olhar de fora do cosmo) – alusão para a dicotomia sujeito-objeto – Ele é apenas mais um dentro do cosmo e por isso não pode decidir a respeito da própria natureza humana. Alguns anos mais tarde essa visão perde lugar, a saber, com o advento do humanismo a cisão entre homem e natureza ocorre, do ponto de vista cientifico iluminista, encontra sua maior expressão na física de Newton e no pensamento de Galileu.
É enfadonho e complicado imaginar como um homem reconhece a si mesmo como um grão de milho no milharal. Um lugar onde o indivíduo nunca é melhor em relação a seus semelhantes, mas em relação a si mesmo. Eles se espelham nos deuses, não há espaço para competição individual, não vemos uma exaltação do “ego”. Se o sujeito não pode ser culpado por males feitos, também não pode ser premiado por puro mérito próprio. Parte do mérito é de fonte divina. Aqui vemos uma nítida semelhança da cultura grega e cultura oriental, do ponto de vista mitológico.
Contudo, percebemos a dívida da cultura ocidental para com a cultura oriental. Os mitos religiosos manifestados em tom de rituais, devolvem ao grego a harmonia. É justamente dessa relação de tragédia e polis que nasce o equilíbrio dos desejos, pelo exercício do preceito delfico, “nada em demasia”. O sujeito tenta fazer aquilo que o herói trágico não foi capaz de fazer, guiar suas paixões.
Cada homem participa de uma queda de cabo de força com seus próprios desejos, com seus próprios demônios, com sua própria razão.

BIBLIOGRAFIA:
FERRATER MORA, J. Dicionário de Filosofia, tomo III (K-P). Edições Loyola. 2001
GAZOLLA, Rachel. O trágico e o político. In: Para não ler ingenuamente uma tragédia grega.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano.

* Sobre o autor:
Nome: Thiago Rodrigues Braga
Titulação: Graduando do 4°ano de ciências Sociais
Universidade Federal de Goiás
Trabalho realizado em Disciplina de Filosofia sobre Tragédia.

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